ROGER WOOLGER

 

Nascido na Inglaterra, Roger Woolger formou-se em Psicologia e Filosofia Analítica pela Universidade de Oxford com pós-graduação em Religiões Comparadas  (hinduísmo e misticismo cristão) pela Universidade de Londres.  Graduado em psicoterapia pelo Instituto Jung de Zurique, Roger é conhecido internacionalmente como um pioneiro na área da psicologia transpessoal.

Seu primeiro livro, “As Várias Vidas da Alma”, uma síntese inovadora da psicologia profunda de Jung, terapia corporal, ioga e princípios de meditação oriental, é considerado um dos trabalhos fundamentais na área de terapia de regressão, tendo sido traduzido para o espanhol, alemão, holandês, italiano e português (Ed. Cultrix).

Seu segundo livro, “A Deusa Interior” (com Jennifer Barker), é um guia à nova psicologia do feminino, inspirado nos mitos e conflitos das deusas gregas (Ed. Cultrix).

Eterno estudante da filosofia perene e da tradição mística cristã, também foi muito influenciado pela prática da meditação budista Vipassana. Roger deu palestras sobre Fellini, Bergman e Cocteau; guiou grupos de estudos de mitologia e religião em Bali, Egito, Grécia e França; era ator amador e ensinava Shakespeare.

Criador do Deep Memory Process, uma síntese brilhante da terapia junguiana, Gestalt, psicodrama, psicoterapia ericksoniana, renascimento, terapia reichiana e consciência Vipassana.


                  De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?  Paul Gauguin

TRIBUTO A ROGER WOOLGER

POR DR. ANDREW POWELL 2012/02/23, LONDON


18 de dezembro, 1944 – 18 nov 2011



Quando fui perguntado se poderia oferecer minha contribuição a essa Ação de Graças pela vida e obra de Roger Woolger, respondi que me sentiria honrado em fazê-lo, mas ressaltei que não fiz parte de seu círculo íntimo. Não fui treinado por ele formalmente e há muitas coisas que não sei sobre sua história pessoal. Foi só durante sua última doença que conheci mais alguns membros desse círculo interno internacional, naturalmente, assim como duas de suas filhas, Kachina e Elysha. Talvez isso me dê a vantagem de ter um certo grau de objetividade ao destacar muitas das realizações de Roger como um amigo querido e colega no campo da espiritualidade e saúde mental.

No entanto, de certa forma, senti que conhecia bem Roger, como acho que ele também me conhecia, e havia uma forte afinidade entre nós. Nossos caminhos se cruzaram várias vezes ao longo dos anos desde o primeiro seminário de Roger do qual participei, “Vidas Passadas”, e que eu assisti em Runnings Park, há mais de 20 anos. Posteriormente, Roger guiou-me através de várias sessões do trabalho que, mais tarde, preferia chamar de Dramas da Alma. Psicoterapeutas são cautelosos para confiar em outros terapeutas, às vezes por boas razões, mas sempre me senti seguro e em mãos muito experientes com Roger.

Profissionalmente compartilhávamos a mesma visão ao buscar uma integração de corpo, mente, alma e espírito que fosse indutora de saúde em um mundo que tantas vezes se comporta mais como uma criança doente do que como um adulto saudável. Minha experiência clínica em medicina e psiquiatria deram-me um ponto de partida. Os treinamentos de Roger, mais esotéricos, alquímicos e excêntricos para as correntes que hoje predominam, deram-lhe outro. No entanto, estávamos olhando para o mesmo. Lembro-me claramente da poderosa palestra ministrada por Roger quando o convidei a falar para o Royal College of Psychiatrists, em 2004: “Além da Morte: A Transição e A Vida Após a Morte”, um tema que muitos de nós continuam a explorar, como ocorreu no último sábado na conferência “Vendo Através do Véu”, realizada sob os auspícios do Instituto Woolger.

Em uma cena de Amadeus, a peça de Peter Shaffer sobre a vida de Mozart, há um monólogo de Salieri, o compositor da corte perturbado e lamentando sua sorte ao se comparar com Mozart. “Por que”, indaga ele, “quando escrevo música faço com que as coisas grandes tornem-se pequenas e, quando Mozart escreve música, ele faz com que pequenas coisas tornem-se grandes?”

Roger tinha o dom de tornar as pequenas coisas grandes – coisas pequenas no sentido de que outros não conseguiam ver importância no que tinha sido dito, assim como de captar o profundo significado de uma palavra escrita ou de um poema, ou de perceber a pequena estátua da Madonna em uma alcova. Roger tinha um maravilhoso senso do contexto, do entrelaçamento de lugares, tempos e eventos e de como isso sustenta e reflete o drama humano. Suas palestras eram excelentes, sempre claras, fluentes e impressionantemente eruditas, mas sem nunca serem pretensiosas. Lembro-me, como um magnífico exemplo, de sua palestra sobre C.G. Jung “Em Busca da Alma e do Cristo Oculto”, em 2008.

Roger já tinha formações em Filosofia, Psicologia e Religião pela Universidade de Oxford e Londres antes de ir para Zurique treinar como analista no Instituto C.G. Jung. Após a publicação de “As Várias Vidas da Alma”, em 1987, ele emergiu como um verdadeiro pioneiro da psicologia transpessoal, reunindo de forma única seu conhecimento dos arquétipos e do inconsciente, do psicodrama, da terapia de vidas passadas, do caminho do xamã e da terapia dos estados traumáticos. Juntava-se a isso sua absorção profunda do mito da Deusa e da ferida da psique feminina, que ele articulou pela primeira vez em “A Deusa Interior”, publicado em 1989. Ainda tínhamos a visão poética e literária de longo alcance de Roger, seu conhecimento e amor pelo Sufismo, a relação profunda com o Budismo Tibetano e com os místicos ocidentais, além de sua compreensão enciclopédica da história e cultura da Europa, incluindo a lenda do Graal, a cruzada contra os cátaros e sem esquecer a Madona Negra.

Roger gostava de compartilhar seu vasto conhecimento e o fez muito generosamente ao guiar muitas excursões pelo exterior. Sua erudição evidenciou-se em suas aulas no Vassar College, na Universidade de Vermont e da Universidade Concordia, em Montreal. Uma outra pessoa poderia ter sido tentada pelos elogios da vida acadêmica, mas Roger vivia no mundo real da humanidade, labuta, suor e lágrimas, profundamente comovido pela história humana de escravidão e sofrimento e determinado a fazer tudo o que podia para aliviar este imenso peso cármico através de seu trabalho de Resgate da Alma. Nos últimos anos, isto o levou para a América do Sul com sua própria história de violência e opressão. Ele não poupou a si mesmo e realmente perguntava em voz alta se não tinha se tornado suscetível a uma doença por ter se esquecido de sua própria vulnerabilidade.

No entanto, Roger só poderia viver do jeito que viveu, totalmente envolvido com a vida, um caminhante místico com sua maneira pessoal e em sua época, abrindo uma trilha, a despeito das convenções, que intimida as almas mais temerosas. Sempre individualista, mas nunca distante. Não devemos nos esquecer do brilho malicioso em seus olhos, da simpatia de seu sorriso, do calor de sua saudação e do humor e leveza de seu contato, que fazia as pessoas se sentirem à vontade com ele e com elas mesmas.

Quanto ao legado que Roger deixa, não acho que ainda conhecemos seu comprimento e sua largura. Um grande número de psicoterapeutas foram treinados ou grandemente influenciados por Roger e espero, sinceramente, que sua influência sobre o ambiente dos cuidados com a saúde continuem a crescer. Ele deixa um instituto de treinamento que encara a perda de seu fundador – algo que toda a instituição que se preze tem de fazer, mais cedo ou mais tarde. Mas, além disso, revelando e valorizando o numinoso na vida de todos os dias, Roger esteve na vanguarda daqueles que pensam profundamente, almas aventureiras que desempenham um papel crucial na evolução da consciência, tão urgentemente necessária neste momento.

Para liderar, como Roger fez, requer não só grande conhecimento, compreensão e amplitude de visão. É preciso dedicação inabalável para a melhoria da alma da humanidade – trata-se, em suma, de um trabalho de uma vida. O repentino colapso da saúde de Roger foi um enorme choque para ele e para nós, seus amigos e colegas. No início, ele lutou como deve lutar um homem quando vê que ainda há muita vida a ser vivida e trabalho a ser feito pois, embora Roger fosse um atento observador da vida, tampouco deixava de ser um protagonista que vivia no centro do palco, o que ele apreciava. Depois, ao enfraquecer, com o apoio amoroso de sua família e do círculo de pessoas íntimas, ele se encontrou, de coração aberto, com a paz e aceitação.

Roger que como terapeuta tinha guiado tantas pessoas para recordarem o término de suas vidas, conduzindo-as para além da morte corporal até novas paisagens, que traziam cura para a alma, teve agora que percorrer o seu próprio caminho deste mundo até o outro. Sentimos sua falta e estamos de luto mas, também, celebramos a riqueza de uma vida vivida plenamente, cheia até a borda, sabendo que sua vocação em servir os outros, tanto os daqui como os em espírito. Isso lhe assegura um futuro luminoso. Roger, nós o saudamos, nós te agradecemos por ter estado conosco durante estes anos preciosos e eu – posso dizer nós? – esperamos renovar nossa amizade com você quando for nossa vez de fazer nossa viagem para casa.